Câmbio Negro e os 17 anos de Sub-Raça 2
Há algum tempo escrevi um artigo aqui pro CHH que me deu enorme satisfação, sobre o primeiro disco dos Racionais. Apesar de não ser nenhum Veríssimo, acho que posso dar uma perspectiva algo interessante sobre alguns aspectos do repe brasileiro, que já amei loucamente, mas pelo qual ainda tenho respeito por tudo o que representou pra mim.
Tenho verdadeiro fascínio por matemática e gosto de números primos. Nasci num dia 3 do já distante ano de 1973, e o número primo 17 tem um significado ímpar na minha vida, pois foi com essa idade que resolvi acordar e me engajar pra valer no hip-hop.
Resgatado com a ajuda imprescindível de Genival Oliveira Gonçalves e Valdivino Monteiro Lima, duas pessoas com quem não convivo mais, mas que ainda respeito pela amizade daqueles tempos estranhos e maravilhosos. GOG e Dino Black, valeu. Por isso gosto de falar sobre datas relacionadas aos números primos, ímpares, indivisíveis, marcantes pra mim.
Camaradas, depois de alguns meses, muitos problemas de saúde e muita ralação profissional, finalmente achei tempo pra escrever um pouco sobre outro disco monumental do repe brazuca. É “Sub-Raça”, do Câmbio Negro, lançado em 1993 pela gravadora Discovery. Tava querendo fazer isso faz tempo e agora foi. Espero escrever menos e melhor do que das vezes anteriores!
Putz, como adoro uma ressalva. Vai aí a primeira: não devo ficar aqui achando desculpas pra justificar meu estilo truncado com as letras, mas, novamente, conto com um pouco da comiseração de vocês. Espero que gostem.
Antes de falar do disco em si, vale destacar um pouco o clima naquele 1993, ano de gravação e lançamento de Sub-Raça. Câmbio Negro já era figurinha carimbada no circuito hip-hop do DF, e a única coisa que faltava era um disco.
Fernando Collor já se afogara em seu mar de lama, os caras-pintadas de butique tavam se preparando para votar em FHC e Racionais explodiu no país inteiro. O vinil era dado como morto e o capitalismo parecia ter triunfado de uma vez por todas. Não havia Internet nem celular.
X, letrista e vocal principal do grupo, Jamaika, vocal de apoio e produtor, e DJ Chokolaty já eram nomes muito expressivos na cena do DF naquele início de anos noventa. X já havia ganhado o mais importante concurso de rap da história da cidade. Jamaika já era bem conhecido como dj e um dos maiores conhecedores de música negra do meio. Chokolaty era o mais destacado DJ e dono da maior coleção de vinis de hip-hop do Centro-Oeste.
Câmbio Negro apareceu de verdade para nós quando abriu o primeiro show do Racionais no Distrito Federal, acredito eu que no final de 1992. Quem esteve naquele dia na defunta boate Kremlin ainda tem muitas das imagens daquela noite na retina. Câmbio Negro e Racionais juntos. Foi inacreditável.
Racionais acabara de lançar “Holocausto Urbano” e a cena repeira no Brasil tava pegando fogo. Aliás, tava pegando fogo no mundo inteiro. Faltava algum grupo do DF fazer contraponto de verdade ao já estabelecido rap paulistano.
Câmbio Negro veio pra falar as nossas gírias, de nossa realidade e de nossas influências. “Véi” em vez de “mano”, “quebrada” em vez de “área”. Samplear AC-DC e Gerson King Combo sem receio. Era a identidade candanga nos sons. Os pioneiros DJ Raffa e os Magrellos, Baseado nas Ruas, GOG e DF Movimento já tinham registros em vinil e reconhecimento no meio repeiro. Mas foi com o Câmbio Negro que o DF definitivamente se firmou como grande centro de hip hop no Brasil. Foi quando realmente nos deram ouvidos.
Pouco tempo depois daquele show de abertura pro Racionais, a formação clássica do Câmbio se consolidou com X nos vocais e Jamaika nas picapes e na produção. Há quem especule ainda hoje como seria se o CN tivesse mantido a mesma estrutura nos anos seguintes…
Véi, também sempre me perguntei o que teria acontecido se o Câmbio não tivesse virado banda e se Jamaika não tivesse saído pra trilhar outro triste caminho. Não vou falar exatamente agora sobre esse traumático período pra todos nós, já que ainda sentimos na pele os efeitos daquela rixa que destruiu a tíbia união que tínhamos. Quem sabe em 2011, quando a briga fará 17 anos? Veremos.
Voltando ao assunto do disco, faltava alguém ter peito pra gravar sons já muito conhecidos em todas as satélites do DF, músicas como “Não pare” e “Cadáver Ambulante”. Um desconhecido dono de uma pequena e obscura lojinha de discos de vinil no centro comercial de Brasília, de nome Genivaldo, teve clarividência suficiente para perceber a rica cena repeira que fermentava freneticamente na periferia de Brasília. Teve faro e ótima visão empresarial. Foi ele quem lançou o primeiro EP de GOG, ainda em 1992, vinil que é uma raridade e um clássico do rap candango.
Apesar de tímido, de tiragem limitada, o disco compartilhado entre GOG e Mc Zeux rendeu bons frutos e deu a Genivaldo segurança e coragem para investir em outros discos de repe em português, e, principalmente, no primeiro disco dos famosos negões carecas da Ceilândia. Para isso foi montado um time de primeira visando viabilizar aquele disco que já era sucesso antes de ter saído.
Foi escalado DJ Raffa, mais importante produtor da história do rap nacional, para materializar as ideias de Jamaika e X. Wanderlei Pozzembom foi contratado pra fazer a foto da capa. As escolhas musicais feitas por Jamaika, as letras de X e a técnica de DJ Raffa resultaram em um dos maiores clássicos de nosso repe brazuca.
Jamaika, versátil artista, não só co-produziu o disco, como também fez os riscos e escreveu parte das letras. O poderoso vocal de X e seus contundentes versos ganharam acompanhamento adequado com as bases produzidas por Raffa. Wanderlei conseguiu transformar o infortúnio em arte visual.
Por falar em Raffa, não deixem de ler o livro “Trajetória de um Guerreiro”, escrito por ele. Lá Raffaelo trata em minúcias deste assunto.
Outro momento digno de nota foi uma apresentação feita por Câmbio Negro e Baseado nas Ruas num evento chamado “Jogo de Cena”, famoso na cidade do avião por juntar as revelações do teatro e da música num mesmo palco. Visto preconceituosamente por muitos de nós como “circo de playboy”, foi rara oportunidade para presenciar uma das cenas mais marcantes de que me recordo.
Raffa estava finalizando as bases do disco do CN quando o Baseado nas Ruas foi convidado pra tocar no SESC do Plano Piloto de Brasília. O cara resolveu incluir no meio do show de seu grupo uma apresentação do Câmbio Negro, duo totalmente desconhecido da plateia. Ninguém sabia qual seria a reação do público. Vaias? Aplausos pouco entusiasmados? Indiferença? Afinal, não era público de repe. Era um “monte de boy branquinho do Plano”.
Quando X entoou o primeiro refrão de Sub-Raça, tudo veio abaixo. Véi, foi uma inacreditável catarse coletiva, que me faz abrir um sorriso de satisfação e saudade. Um monte de gente comportada, de outra realidade, gritando “sub-raça, sub-raça, é a puta que pariu!” com toda a força. Pediram bis. Ovacionaram longamente. Viram o nascimento de uma lenda do repe nacional. Câmbio Negro não roubou a noite, ele a imortalizou. Fomos uns duzentos sortudos naquele dia.
Ah! uma curiosidade sobre a capa do disco. Na hora em que o fotógrafo Wanderlei Pozzembom ia tirar a foto pra capa, acabou a luz em toda a Ceilândia. X me ligou perguntando se eu não poderia conseguir um carro pra levá-los a outro lugar pra tirar as fotos. Não consegui e eles resolveram usar luz de vela pra foto. Até nisso os caras acertaram. A foto principal ficou sensacional e até o problema de fotolito que arruinou a contracapa não atrapalhou o belo conceito do álbum.
Lembro como se fosse ontem o dia em que Jamaika me ligou pra dizer que o vinil tinha acabado de chegar na loja da Discovery, ainda sem capa. “Corre pra lá pra pegar o teu. Já tô indo”. Eu e Dino Black sabíamos que o disco ia chegar naquela semana. Ficamos em casa ao lado do telefone na segunda, na terça e, na quarta, veio a notícia. Tinha chegado afinal.
Saímos correndo de casa pra pegar um buzão e ir buscar logo nossas cópias, mesmo sem capa. Foram momentos mágicos, inesquecíveis, ver que finalmente X e JMK estavam tendo a oportunidade que mereciam. Uma grande porta tava se abrindo naquele momento. Porta que nós mesmos fecharíamos logo depois.
A volta pra casa naquela tarde de quarta-feira foi ainda mais memorável. A gente dentro do coletivo carregando discos sem capa com autógrafos nos rótulos, segurando-os como um tesouro desconhecido pelo resto do universo. Fomos tomados por uma espécie de incontrolável fome musical e de um orgulho sem precedentes. Chegara a nossa vez! Chegou a vez do repe do DF!
Sentíamo-nos privilegiados. Seríamos os primeiros a ouvir o vinil. Tínhamos os primeiros autógrafos da dupla que mudaria o destino do repe candango. Naquele dia “Sub-Raça” foi tocada lá em casa umas duzentas vezes, para irritação de minha mãe, que nunca suportou palavrão em música. Ainda mais “puta que o pariu”!
A primeira tiragem vendeu como água no deserto. Todos vendidos sem capa. Não se falava de outra coisa a não ser do disco dos caras. “Quando vão fazer o show de lançamento aqui no DF?” era a pergunta mais freqüente nos bailes. X e Jamaika viraram celebridades instantâneas em poucas semanas, sem divulgação alguma.
Tive a sorte de acompanhar esses momentos de perto. Pude estar próximo de pessoas como Tutão, GOG, X, Jamaika e Japão no início de suas carreiras. Gosto de falar disso. Me orgulho disso. Bate saudosismo e um grande arrependimento pelo que deixamos de fazer. Em vez de contemporizar, jogamos lenha na fogueira. Paciência. Já era.
Cara, outro dia perguntei pr’um moleque, que se diz fã de rap nacional, se ele curtia Câmbio Negro. E ele respondeu com outra pergunta: “de quem cê tá falando?” Ver que um monte de moleque por aí não faz a menor idéia do que Câmbio Negro representa me deprime, me indigna, me revolta.
E temos boa parte da culpa, por que todos agimos como o Yago em Otello de Shakespeare. Fomentamos a intriga pra ver o circo pegar fogo. Pegou mesmo e só não morreu gente por sorte.
Por outro lado, parece que há hoje um movimento organizado em prol da desinformação. Vários “DJs” que não tocam os clássicos do rap nacional em seus programas, que não valorizam o rico passado que temos. O presente e o futuro dependem disso, de conhecimento sobre nossas raízes.
Jaqueline Fernandes, da ótima produtora Griô Produções, pretende fazer um documentário sobre X e Câmbio Negro. Vai sair, Jaque, tem que sair. X tá na dele, mas tá mais vivo que nunca. Breve terá notícias dele.
Galera, não vou comentar as faixas uma a uma. Melhor parar por aqui. Prefiro que comprem ou baixem o disco. Verão como esse LP é sensacional.
Pra terminar, rendo graças a Allah por ainda existir uma molecada segurando a onda do bom repe nacional nos quatro cantos do país. Lindomar 3L, Ataque Beliz, entre outros. Gente que sabe o que Câmbio Negro representa.
Nos vemos por aí ou na próxima vida.
Um maravilhoso 2010 a todos.
Por: DJ TyDoZ, em 20/01/2010
Fonte: http://culturahiphop.uol.com.br/
O conteúdo deste texto é de responsabilidade de seus autores e não reflete necessariamente a posição do site.







ola gosto muito de da banda curto desde de criançinha, e posso dizer que um dos melhores grupos de rap do brasil simplemente ritmo e poesia gosto muito do X e quero dizer que aprendir muito com suas musicas. estou sintindo falta de musica de qualidade como as de vç, um salve e ate mais..,
Sou suspeito pra falar do Câmabio Negro, sendo que sou grande fã dessa rapaziada, que faz parte da vanguarda do rap brasileiro.
E esse já quase ”maior de idade” disco SUB-RAÇA, é um dos mais consistentes do rap nacional, sem dúvida nenhuma.
Ele com certeza está na minha lista pessoal dos 10 discos mais influentes do rap nacional. Pode acreditar.
Paz à todos!!!